Com simulador de cobranças de pênalti, salas interativas, filmes em 3D e exposição temporária sobre Pelé, o novo Museu do Futebol já nasce como uma das grandes atrações da cidade
Fotos divulgação
Anjos barrocos: uma sala escura onde craques como Rivellino, Didi, Nilton Santos, Roberto Carlos, Zico e Falcão flutuam em telas transparentes
Vitor Birner é comentarista de futebol da Rádio CBN. Apesar de trintão, parecia uma criança na abertura do Museu do Futebol. Passou rápido pela Sala das Origens e se divertiu a valer em uma das quatro mesas de pebolim na Sala dos Números e Curiosidades. Em cada uma delas, os bonequinhos são dispostos de maneira diferente, reproduzindo os diversos esquemas táticos do futebol ao longo dos tempos. "Vá ao museu sem a pressa paulistana. Saí de lá maravilhado", recomendou em seu blog.
Eliane Coelho, minha mulher, é arquiteta e não gosta de futebol. Apressou o passo na Sala das Origens, olhou com pouco interesse as mesas de pebolim e ficou encantada com a Sala da Exaltação. Trata-se de uma espécie de porão do Pacaembu. Um buraco que precisou ser aberto nas estruturas do estádio para servir de passagem entre as alas do museu. O arquiteto Mauro Munhoz conseguiu tirar dali um ambiente cenográfico entre pilastras, concreto e montes de areia. Grandes telões foram instalados e cenas de torcidas dos principais clubes brasileiros se alternam. O som é poderoso. Dá a sensação de se estar no meio da arquibancada. O curador Leonel Kaz apelidou o pedaço de "Termas de Caracala". Faz sentido. Foi nas ruínas das termas, em Roma, que os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo fizeram um concerto lendário na Copa da Itália, em 1990.
Talvez o grande mérito do Museu do Futebol seja reunir na mesma torcida um ex-presidente sociólogo que já viu de tudo, um fanático por esporte que não se cansa de nada e uma arquiteta que nem time tem. Os três, por motivos diferentes, acabaram se interessando e gostando do lugar. É claro que nem todos vão olhar tudo – são 1 490 fotos e seis horas de vídeos, que estão espalhados pelos quase 7 000 metros quadrados de atrações. Uma hora e meia é insuficiente para dar conta dos três andares e quinze ambientes. O futebol é utilizado como fio condutor da cultura nacional e até aqueles que torcem o nariz para o esporte encontram bons motivos para ir lá. Ao que tudo indica, o Museu do Futebol disputará com o Museu da Língua Portuguesa, que recebe 50 000 pessoas por mês, o título de o mais visitado do Brasil. As atrações podem ser divididas em três categorias: para os leigos, para os fanáticos e para todos os gostos.
Salas para leigos
• Origens – Lugar perfeito para quem se interessa pela história do Brasil do século passado. É um espaço com fotos de alto a baixo, mais um vídeo de quatro minutos contando a história do esporte. Há retratos antigos não apenas de futebol, mas de aspectos da cultura nacional: os primeiros automóveis, as cidades, personalidades.
• Heróis – Um grande painel coloca na mesma cumbuca personagens formadores da cultura brasileira do porte de Getúlio Vargas, Gilberto Freyre e Villa-Lobos e jogadores como Leônidas da Silva e Domingos da Guia.
• Copas do Mundo – Um salão com totens multimídia que lembram uma taça. Cada um deles representa um Mundial. Reúne vídeos, fotos e legendas. E não é só futebol. Na Copa de 82, por exemplo, está todo o contexto da redemocratização do Brasil, com fotos das diretas já e letras de música da época.
• Números e Curiosidades – É o momento McDonald’s do museu. Uma espécie de refeição rápida para quem provou verdadeiros pratos franceses em outras salas. Infográficos de jogadas, regras para quem está sendo apresentado agora ao esporte, tudo muito picotado com a assinatura do jornalista Marcelo Duarte, o rei das curiosidades. Enquanto os leigos aprendem, os fanáticos podem se ocupar com o pebolim.
Salas para fanáticos
• Grande Área – É a entrada do museu idealizada pelos cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara. Um grande vão livre com um painel fotográfico variado. Basicamente são objetos do futebol: bandeiras, flâmulas e peças de futebol de botão.
• Gols e Rádios – É um espaço para ficar um bom tempo. Trinta jornalistas e personalidades, como Armando Nogueira e Ruy Castro, elegem o gol de suas vidas e explicam em vídeo o porquê da escolha. Ao lado, ouvem-se narrações históricas de gols por vozes como as de Osmar Santos e Ary Barroso.
• Dança do Futebol – São estações multimídia em que é possível entrar e acompanhar em telões textos e imagens sobre goleiros, drible, Canal 100 e gol. É difícil ver uma e deixar para trás as outras...
• Pacaembu – Para fanáticos de carteirinha, arquitetos e, eventualmente, interessados pela história de São Paulo. O assunto é a construção do Pacaembu em um vale que parece ter nascido para abrigar um estádio de futebol. Vídeo, plantas e fotos. Aqui vale um parêntese. De uma certa forma, o Museu do Futebol, concebido há três anos pelo então prefeito José Serra, que o inaugurou como governador, celebra a vitória do Estádio do Pacaembu. Ao abrigar uma obra de 32,5 milhões de reais, cujas concepção e realização se devem à Fundação Roberto Marinho, ele reafirma sua vitalidade. Se como arena esportiva ainda tem sua utilidade questionada por ter instalações obsoletas, agora o Pacaembu está tão vivo quanto nos anos 50.
Salas para todos
• Pé na Bola – É o corredor onde começa o museu. Telas em seqüência com crianças chutando bola nos mais diversos terrenos dão o pontapé inicial na visita. O fanático vai gostar, o leigo achará poético.
• Anjos Barrocos – Um momento tecnológico: a sala escura com painéis holográficos flutuando sobre as cabeças. Ali aparecem 25 craques brasileiros de todos os tempos, de Pelé a Ronaldo, passando por Rivellino, Zico e Nilton Santos.
• Exaltação – A hora sagrada do museu. Nas entranhas do estádio, uma ópera popular com o canto das torcidas. Imperdível para quem é apaixonado pela bola e também para quem não dá a menor pelota a ela.
• Rito de Passagem – Quem conhece a história da derrota de 50 sofrerá de novo. Quem mal ouviu falar da tragédia no Maracanã a sentirá pela primeira vez. Em uma sala escura, com um som nas alturas, o visitante é transportado para o Brasil 1 x 2 Uruguai de 1950. O nome "rito de passagem" se deve à sala seguinte, que é a das Copas do Mundo.
• Pelé e Garrincha – É um espaço pequeno, quase uma passagem para a passarela que leva até a ala dos Números e Curiosidades. Mas ali estão Pelé e Garrincha, que jamais perderam um jogo de futebol quando atuaram juntos na Seleção Brasileira. O destaque é a camisa usada por Pelé na final da Copa de 70, vendida pelo técnico Zagallo em um leilão londrino. A sorte do museu é que o cineasta e apaixonado por futebol João Moreira Salles a arrematou e decidiu doá-la.
• Jogo de Corpo – Era para ser um show tecnológico já no final da exposição, mas faltou um pouco de capricho. Nesta área há um "cineminha" em 3D com embaixadinhas de Ronaldinho Gaúcho. Além da gravação um pouco longa, a bola muito próxima do jogador ameniza o efeito de 3D.
Percorrida a exposição, o único incômodo que fica é em relação à quase inexistência de memorabilia. Com exceção da camisa de Pelé, não há objetos expostos. "A rigor, o museu cabe dentro de um DVD. A principal experiência de quem o visita é a contemplação de vídeos e fotos", escreveu no portal IG o jornalista Mauricio Stycer. O comentarista da Rede Globo Arnaldo Jabor, um dos convidados da abertura, já tinha decretado opinião diferente antes mesmo da visita: "A visão tradicional de museu tem algo de sepultura, é a preservação de relíquias de um passado poeirento. Por isso esse museu é maravilhoso, porque ele não preserva nada. Ele celebra a imaginação dançante do futebol".
O fato é que a falta de objetos não foi exatamente uma opção conceitual. A curadoria tentou negociar raridades e esbarrou nos valores pedidos por colecionadores para ceder suas camisas, bolas e chuteiras. Acabou optando pelo caminho virtual. A experiência de grandes museus do esporte – o melhor exemplo é o inglês Preston, que concilia delírios tecnológicos com um precioso acervo de equipamentos do futebol – ensina que um objeto fascinante atrai visitantes e ao mesmo tempo preserva, de fato, a memória. Talvez seja por aí a evolução nos próximos anos do nosso Museu do Futebol, que tem tudo para ser uma das grandes atrações de São Paulo.
• Museu do Futebol. Estádio do Pacaembu. Praça Charles Miller, s/nº, Pacaembu,
3663-3848. 10h/18h (ter. a dom.). Fecha em dias de jogos. R$ 6,00. A bilheteria fecha uma hora antes. Grátis para menores de 7 anos. www.museudofutebol.org.br.
Jogo de corpo
Copas do Mundo
Exaltação e Heróis
Origens e Grande Área
Pênalti e Números
Pelé e suas jóias no museu high-tech
Fotos divulgação Figer
Ao longo de seus vinte anos de carreira, Pelé guardou poucas camisas. As do Cosmos, de Nova York, chamam atenção por ser pouco conhecidas
No Maracanã, em 1969, ele marcou seu milésimo gol. O vídeo mostra a cena, e uma redoma de vidro protege o tesouro de couro
As Marcas do Rei são um contraponto por estar dentro de um museu rico em tecnologia e pobre em objetos. A exposição faz o caminho inverso, vai fundo na memorabilia de Pelé. Ali, e em nenhuma outra sala do museu, está a jóia mais valiosa exposta hoje no Pacaembu. Pelé recebeu na Copa de 70 uma réplica folhada a ouro da Taça Jules Rimet. Era tamanha a confiança no tri brasileiro que a organização mexicana do Mundial mandou confeccionar um troféu sobressalente para Pelé. Afinal, a seleção que ganhasse três Mundiais ficaria com a posse definitiva da Jules Rimet (tanto Brasil quanto Itália já tinham vencido dois), e apenas Pelé poderia se transformar no único jogador a conquistar três Copas do Mundo.
A caixa de engraxate é a peça predileta do rei. Sua mãe guardou o instrumento de trabalho, antes da bola
Na Copa de 70, ele ganhou uma réplica folhada a ouro da Jules Rimet. A original foi roubada e derretida. Essa taça é a do rei
>> Acesse o mapa do museu com comentários sobre as atrações