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CORRETORES

Lábia afiada

06.11.2007

Poucos produtos de consumo são tão cobiçados quanto a casa própria. Mas, entre o sonho e sua realização, (quase) sempre há um vendedor "bom de conversa". Que também tem seus anseios

 

Por Marília Ruiz

Mario Rodrigues

Fabiana Vendramin: "Já teve um homem que, depois de comprar um apartamento, me convidou para uma comemoração a dois"


São Paulo tem cerca de 70.000 corretores imobiliários. E todos se desmancham em elogios à própria profissão. "Sou muito feliz e faço meus clientes felizes", afirma uma das campeãs de vendas da Lopes, Jade Khoury. "Realizo o sonho das pessoas", diz o "fenômeno" do ano da Itaplan, Francisco Carlos Américo da Silva. "Vendo dias mais alegres", repete José Antonio Casaes, da Fernandez Mera. Papo de vendedor? Certamente. Mas essa conversa passou a ser regulamentada há quatro anos. Desde a entrada em vigor do novo Código Civil, os tais vendedores de sonhos têm de ser responsáveis. O artigo 723 do código deixa claro que o corretor pode responder na Justiça por perdas e danos se não prestar aos seus clientes – espontaneamente – todos os esclarecimentos sobre segurança, risco do negócio, alterações de valores...

"Meu trabalho é achar o que o cliente procura, e não encaixar o produto que eu tenho", afirma a ex-marchand carioca Jade Khoury. "Se não for assim, o sonho pode ser tornar pesadelo." Ela conta que virou corretora há sete anos, por acaso. Mudou-se para São Paulo quando uma amiga a indicou para uma vaga na Lopes. Nunca tinha vendido um apartamentinho sequer. De lá para cá, Jade acumulou, além de comissões, uma agenda VIP. Especializou-se no mercado de luxo. Para circular com desenvoltura no jet set paulistano, coleciona bolsas, sapatos, vestidos e perfumes de grife. Aos 35 anos, prepara-se para realizar dois desejos de uma só vez. "Neste ano, vou comemorar meu aniversário na Itália e me mudar para o apartamento que comprei nos Jardins."

Jade Khoury: roupas de grife para circular no jet set paulistano

Desejo realizado recentemente também por Senna, pseudônimo do mais jovem gerente de vendas da Fernandez Mera. Aos 24 anos, Luís Fernando dos Santos está de malas prontas para o Morumbi. Ele e a mulher, grávida de dois meses, vão deixar Taboão da Serra até dezembro. Criado em um bairro de classe baixa da Zona Sul, Senna sempre estudou em escola pública e não tem formação superior. Trabalha desde os 13 anos. Já pilotou carrinho de churros e aventurou-se como colorista de loja de tintas. Achou sua vocação em uma viagem para Santa Catarina, em 2002, quando conheceu o dono de uma imobiliária. Em dois meses, ele fez um curso e conseguiu o registro profissional da categoria. Menos de um ano depois, trocou a modesta imobiliária de Taboão pela Fernandez Mera. Foi promovido a gerente em setembro. Hoje, chefia uma equipe de dezoito pessoas. Todas mais velhas que ele. "Pretendo um dia chegar a diretor-adjunto ou mesmo diretor da empresa", diz. "Tiro entre 10 000 e 15 000 reais por mês. Tenho três imóveis e quero ajudar meu irmão, que é motoboy, a comprar um apartamento."

Fernando Moraes

Senna, à frente de sua equipe: de 10 000 a 15 000 reais por mês de comissão

O arquiteto José Antonio Casaes também entrou na profissão por acaso. Em 1992, ele havia acabado de voltar de Portugal, onde se refugiara depois do Plano Collor. Sem nada no bolso, a não ser uma lista de antigos clientes, aceitou o convite para assumir o comando de um estande de vendas abandonado em plena véspera de Natal. De vassoura e balde em mãos, foi abordado por um cliente que, em menos de duas horas, comprou a cobertura. O iniciante Casaes ganhou 5 000 dólares de comissão logo no primeiro dia de trabalho. "Mas não tinha um tostão para pegar ônibus", conta. A guinada na carreira veio em 2000, pelas mãozinhas de seu filho. José Márcio, hoje com 13 anos, levou o pai a usar o computador. "Eu trabalhava e ele ficava mexendo", lembra. "Além de me ensinar muita coisa, deu a idéia de vender pela internet." Casaes foi transferido para um departamento que antes nem existia: o de vendas eletrônicas. No ano passado, segundo dados da Fernandes Mera, 38% das vendas começaram por meio de um contato virtual entre clientes e corretores.

Fernando Moraes

O corretor virtual Casaes: 38% dos negócios começam pela internet

A dica de um cliente mudou a vida de Francisco Carlos Américo da Silva, que ganhou o título de "fenômeno de vendas" da Itaplan. Depois de onze anos vendendo geladeiras, fogões e televisores nas Casas Bahia, ele acreditou que 2007 seria o ano do boom imobiliário. Começou a trabalhar na Itaplan em maio. Quatro meses depois, havia vendido 32 dos 64 conjuntos de um edifício comercial na Barra Funda. Detalhe: além dele, batem ponto no estande outras quatro pessoas. "Multipliquei meu rendimento mensal por três", diz.

Lidar com o público, no entanto, às vezes traz algumas saias-justas. Fabiana Goulart Vendramin perdeu a conta das cantadas que recebeu desde que abraçou a profissão, em 2005. "Já teve um homem que, depois de comprar um apartamento, me convidou para uma comemoração a dois", afirma. "Desconversei e pedi para o meu supervisor fechar a venda." Segundo ela, as comissões que ganhou nestes dois anos fizeram com que conseguisse quitar seu imóvel e ainda comprar um carro zero. Afinal, mais do que ajudar a realizar os sonhos alheios, os corretores (assim como as construtoras, as imobiliárias, os bancos...) aproveitam o aquecimento do setor para ir atrás dos próprios sonhos.


 
 
 
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