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COMPORTAMENTO

Da cama para o escritório sem sair de casa

06.11.2007

Boa parte dos lançamentos imobiliários da cidade prevê a opção de home office. Mas trabalhar ao lado do quarto requer disciplina

 

Por Daniel Nunes Gonçalves

Fotos Fernando Moraes

A executiva Cristina Palmaka, no home office de seu apartamento em Moema: no comando de uma equipe de oito pessoas espalhadas por quatro países

Trabalhar em casa está fazendo a cabeça dos paulistanos. É isso que acaba de constatar a pesquisa de doutoramento que o arquiteto Marcelo Mendonça, mestre em escritórios residenciais pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), está prestes a defender. Segundo o levantamento, foram lançados 179 empreendimentos imobiliários entre agosto de 2006 e maio de 2007. Ao todo, esses lançamentos tinham 300 tipos de planta (38% com opções de escritório). Trata-se de um crescimento de 65% em relação ao período de 2000 a 2005, quando apenas 23% das plantas disponíveis contavam com um cômodo planejado para o trabalho. "Assim como os terraços maiores, os home offices são um pedido dos compradores", acredita Mendonça.

Quatro em cada dez lançamentos com esse perfil ficam na Zona Sul, em apartamentos com cerca de 200 metros quadrados, normalmente com quatro dormitórios. Eles atraem profissionais como Cristina Palmaka, que comanda virtualmente uma equipe de oito pessoas espalhadas por quatro países a partir do home office de seu apartamento de 190 metros quadrados em Moema. "Em casa, é preciso ter disciplina tanto para trabalhar quanto para não trabalhar demais", afirma a executiva, diretora de consumo da HP para a América Latina. Casada e com uma filha de 1 ano, Cristina tem regras próprias para que a vida familiar não saia prejudicada. "No início e no fim do dia, paro tudo para curtir minha filha", conta. "Sexta à noite reservo para sair com meu marido." O tempo de lazer também é intocável: quatro dias por semana, a executiva, que é maratonista, corre até 30 quilômetros ao ar livre.

O analista de sistemas Ciro Sisman (no alto) e a agente de viagens Vera Galindo (acima): ele montou seu escritório no quartinho de empregada e ela, no meio da sala

Na busca pelo equilíbrio entre a vida privada e a profissional, o cineasta Hilton Lacerda, diretor do documentário Cartola e roteirista de filmes como Baixio das Bestas e Amarelo Manga, segue a mesma rotina todos os dias. Acorda cedo e finge que vai sair para trabalhar. "Tiro o pijama, tomo banho, faço a barba e aproveito a concentração da manhã", diz. Ao longo do dia, dá uma relaxada inventando intervalos para circular pelas ruas do centro, onde mora. Lacerda pode ganhar inspiração em livrarias e até em sessões de cinema em plena segunda-feira à tarde, às vezes enquanto a faxineira passa o aspirador de pó no home office.

O sucesso de quem trabalha em casa depende bastante do controle das interferências domésticas. Que o diga o casal de artistas plásticos Fernando Vilela e Stela Barbieri. Com duas crianças, dois cachorros, três empregados e três assistentes de trabalho, eles se sentem pós-graduados em administração do tempo. "Em alguns períodos, todos sabem que o ateliê é só meu", explica Stela. A megaestrutura de apoio montada no agradável sobrado arborizado da Vila Romana foi fundamental para que o casal centrasse o foco naquilo de que mais gosta: arte e literatura. O ateliê, no 2º andar da edícula, é compartilhado com o marido quando tocam algum projeto conjunto, como os livros infantis que ilustram e escrevem. "Fazemos tantas coisas que dificilmente ficamos juntos", conta Vilela, que lançou vinte livros nos últimos três anos e ganhou três prêmios Jabuti em 2007.

O trabalho fora do espaço físico das empresas só é possível porque a evolução da tecnologia facilitou a comunicação. Autônomo depois de quinze anos como empregado, o analista de sistemas Ciro Sisman preferiu o conforto de casa às despesas extras do aluguel de um escritório. Para interagir com os colegas de trabalho virtual, equipou-se com três computadores conectados à internet. Ferramentas como MSN, ICQ e Skype substituem o telefone no contato com seus chefes, que estão baseados no Texas, Estados Unidos, e que ele nunca viu pessoalmente. "Fui contratado pela internet, ganho em dólares e tenho autonomia para desenvolver os softwares de que a empresa precisa sem me estressar, por exemplo, com o trânsito no caminho para um escritório externo", afirma Ciro, que gosta de trabalhar ouvindo rock clássico. As três horas que ele costumava perder nos congestionamentos agora podem ser convertidas em trabalho ou até em um cochilo após o almoço. "Hoje sou mais produtivo e concentrado", diz, acomodado no quartinho de empregada de 2 metros quadrados adaptado no apartamento de dois dormitórios em que vive com a mulher, na Mooca.

O casal de artistas plásticos Fernando Vilela e Stela Barbieri no ateliê da Vila Romana e o cineasta Hilton Lacerda em seu apartamento no centro: saídas para espairecer entre um serviço e outro

Ao entrevistar 100 trabalhadores caseiros, o arquiteto Marcelo Mendonça constatou que 50% dos home offices já existentes são espaços adaptados em um dos três ou quatro dormitórios da casa. Em apartamentos menores, a área social é que se torna o ambiente para o ganha-pão. É o caso da agência de viagens criada há seis anos por Vera Galindo, num apartamento de 95 metros quadrados no encontro da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Quem entra pela porta principal depara com duas mesas de granito nas quais ela e sua assistente se desdobram atendendo cinco linhas telefônicas exclusivamente profissionais, entre mapas na parede e guias de turismo nas prateleiras. "Não costumo receber os clientes aqui, mas, caso isso ocorra, o passageiro nem vai desconfiar que eu durmo no fim do corredor", diz Vera, que trabalha religiosamente das 9 às 18 horas. Regar plantas, passear com a cachorra e preparar cafezinho são atividades feitas fora do expediente. Ainda assim, a privacidade é ameaçada pelas emergências do trabalho. "Já tive um jantar à luz de velas interrompido pelo telefone da empresa que não parava de tocar", lembra. "Era um cliente com imprevistos numa viagem."

 
 
 
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