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Quem não bebe vinho, não vê o mundo girar...

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

E essa lei, hein?

Vamos aos fatos.

A lei, como era antes:
Se o motorista fosse pego com dosagens acima de 0,6 gr/l (sangue) ou 0,3 mg/l (ar), seria multado, teria sua carteira apreendida por um ano e seu carro retido, podendo ser retirado por alguém habilitado e sóbrio.
Como é agora:
Teoricamente é lei seca, o motorista será autuado por qualquer quantidade de álcool, porém aguarda-se regulamentação do CONTRAN para se estabelecer tolerâncias, que provisoriamente é 0,2 gr/l (sangue) 0,1 ml/l (ar).


Prisão, antes:
O motorista só iria preso se causasse acidente estando alcoolizado.
Agora:
O motorista será preso se for pego apresentando concentração de álcool igual ou superior a 0,6 gr/l de sangue ou 0,3 mg/l de ar. A penalidade será de detenção de seis meses a três anos, além da multa de r$ 957,70 e retenção da carteira de habilitação.

(fonte: http://www.apka.org/noticias/2008/entendendo-a-nova-lei-sobre-alcool-e-direcao)

Basicamente, o que mudou foram as quantidades. Já ouvi protestos dos mais variados: e se você quiser sair para jantar? E se o seu corpo produzir álcool depois de tomar um remédio (não sei se isso pode acontecer, mas já ouvi). E se você comer um bombom de chocolate? Bem, queridos leitores: se alguma coisa dessas acontecer, não dirijam.
Sou 100% a favor da lei. Tudo bem, ela basicamente já existia e nunca foi aplicada, nem as pessoas punidas. Agora, claro que também sabemos que já já cai no esquecimento. Mas, se tudo isto servir para evitar 1 acidente, digam-me: já não terá valido a pena?

Álcool e bebida não se misturam. A lei deve ser igual para todos - para o cara que come bombom e para o que toma álcool em excesso. Eu tenho certeza que a maioria das pessoas que estão me lendo consomem vinho de forma consciente e moderada, por prazer, sem exagero. Mas a partir do momento que se bebe, não se dirige.
Eu já decepcionei muita gente com minha posição, mas eu prefiro assim. Juro. Talvez porque eu não dirija já há muitos anos, estou acostumada a andar de ônibus e metrô, então a lei não me abala em nada.
Mas, a aqueles que ela abala, pensem comigo: se continuar, se der certo, pode ter um resultado importante. Vamos apoiar, usar transporte público para sair, ou revezar os amigos para dirigir, ir para bares mais perto de casa ou, ainda (mas, mais caro) rachar um taxi. Não custa tentar.

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Os vinhos da Confraria

Poucos não foram, nem ruins muito menos. Os vinhos servidos na cerimônia de encontro do Confrades da Confraria do Periquita e entronização dos novos estavam divinos. Na chegada, Periquita rosé, fresco e preciso.
Durante o jantar, primeiro, com a Sopa de Ervilhas à Soares Franco, tomamos o sempre delicioso Periquita Reserva 2005. Delicado, boa fruta e estrutura justinha, nem mais nem menos. Eu gosto do ligeiro toque verde que a Trincadeira dá. Ele é encontrado aqui no Brasil mais ou menos a R$ 45,00

Depois tomei o pra lá de superbo, delicioso e incógnito RA 2004. É um vinho que, na verdade é um conceito ainda em experimentação para o que será, futuramente, um ícone ou, por assim dizer, um "super" Periquita.
Provavelmente uma volta às origens, já que é feito 100% com Castelão (a uva que levava o nome de Periquita por causa do vinho). Nariz com pimenta do reino e couro, um fundo de fruta e baunilha. Toques de carvão bastante mineral. Na boca é cheio, taninos bem apertados, quente mas com ótima acidez e final lembrando café frio.

Para a sobremesa tomamos o Mosacatel Roxo, um fortificado feito com esta uva super rara. Vinho muito perfumado e intenso, lembra resina, própolis e carvão. Na boca é muito cremoso, super quente e com boa acidez, retrogosto lembrando carvão de novo e própolis. Comprimento em boca praticamente eterno.... Acompanhou divinamente um queijo local ( de Azeitão) super ácido, gordo e cremoso. Tudo inesquecível

Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

A Confraria




Cheguei lá e minhas pernas tremiam. O friozinho que lembrava um friozinho de outono limpava o ar. Mas, nessa época do ano já deveria fazer calor, é primavera no dia 31 de Maio. Era primavera quando José Maria da Fonseca nasceu. Com esta temperatura, parece que a safra vai ser ruim por aqui.
Mas as minhas pernas não tremiam por causa do frio. Eu estava nervosa, e era um dia importante para mim. Para aquelas pessoas, meu trabalho é importante, meu trabalho faz a diferença e estava sendo reconhecido. E foi por isso que eles me chamaram para estar lá com eles, para fazer parte do grupo deles.
Na confraria do Periquita todos são meus amigos, todos são uma família e reconhecem o trabalho daqueles que trabalham pelo vinho.
A acolhida não poderia ter sido mais quente. Toda a família, Antonio, seu filho Antonio Maria, e Domingos Soares Franco nos recebiam um a um. No pátio da linda casa bebericamos Periquita rosé (espero que chegue "cá" um dia) e, por sorte, Carlos Cabral, a maior assumidade em vinho do Porto no Brasil estava lá sorridente, com sua não menos simpática e sorridente esposa Leda, o que me acalmou de certa forma os nervos.


As sensações de que aquilo tinha uma dimensão importante e internacional, mas ao mesmo tempo era algo muito de família ficaram acentuadas pelo fato de eu estar sendo entronizada ao lado de ninguém menos que a mãe dos proprietários Antonio e Domingos Soares Franco, mas também ao lado de alguém tão internacional como Mel Dick, o maior importador e distribuidor de vinhos dos Estados Unidos, que, por sua vez, é o maior mercado do mundo. Ele simplesmente é o número 2 da lista das 50 pessoas mais influentes do vinho segundo a revista inglesa Decanter.
E esta humilde colunista estava lá, com as pernocas tremelicantes outra vez.


Uma banda toca e caminhamos todos para dentro das adegas onde seremos entronizados. Eu fui logo a segunda. Nos chamam ao palco, contam quem somos, nossas carreiras, batem palmas e assinamos o livro do XVI Capítulo Anual da Confraria do Periquita. Depois disso, à mesa! Mais uma vez, honra total: Antonio Soares Franco ao meu lado esquerdo e Domingos à minha frente para conversar à vontade. Uma longa mesa com 150 pessoas, dentro de uma adega com barris gigantescos de Periquitas que descansam antes de chegar às nossas sedentas bocas.

O cardápio é famoso por sua sopa de ervilhas à Soares Franco, receita obviamente escondida e secreta. É temperadinha com hortelã, leva chourizinho, ovo cozido, com a gema que se esparrama por cima e me fez perder a compostura, já que, literalmente, babei aquela delícia. Depois comemos supremos de Pintada, tipo uma galinha, só que mais saborosa, de origem africana, famosa na França como "pintade", que os irmãos me contaram que se lembravam perfeitamente da primeira vez que seu pai os levou a comer aquilo e nunca esqueceram. Domingos dizia, "pintade, eu me lembro" e se ria gostosamente, como sempre faz.

A sobremesa foi um absurdamente saboroso e beirando o erótico Bombom de chocolate com caroço de framboesa.. Uma textura misturada e exata de cremosidade e crocância, tudo delicioso.
Minhas pernas já não tremiam. Fazia, de certa forma, calor. Coração aquecido, bochechas rosadas, riso solto, rodeada de litros e litros de vinhos, me dei conta: como é gostoso ser parte de um grupo.

ps: os vinhos que tomamos, também aos litros, conto no próximo capítulo...

Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Avant Premier Doce


Lançamento delicioso da Bodega Terrazas da Argentina. Esteve por aqui, num almoço entre amigos da LVMH, o charmoso Manuel Louzada que, pelo nome, vocês podem concluir, é português. O que um português faz na Argentina trabalhando para um grupo francês? Atualmente, é diretor de enologia das bodegas e veio ao Brasil nos contar um pouco sobre a novidade.
O lançamento em questão é um vinho feito de colheita tardia, de uvas Petit Manseng plantadas em Mendoza no ano de 2000. Mais conhecida pelos maravilhosos vinhos da região de Jurançon, no sudoeste de França (precisamente na fria região aos pés dos Pirineus), ela parece ter gostado do clima mais quente de Mendoza.
O resultado é um vinho branco bem intenso, com nariz mostrando muita manga madura, pêssego e licor de amêndoas (tipo frangélico). Tem umas notinhas de frutos secos, como se fosse nozes caramelizadas.
Na boca a surpresa é maior: excelente volume e, mais importante, a acidez é bem presente, fazendo explodir mais ainda os sabores do vinh e deixando clara a importância do frescor dos vinhos resultantes de vinhas plantadas em altitude. Muito comprimento e intensidade de sabor no final, quase esmagou a sobremesa de folhado de frutas. Ficou bem com uma espécie de "pé de moleque" servido no final com o café.
O preço, apesar de entendermos as dificuldades de produção que encarecem o produto, é de amargar R$ 130,00 a garrafa de 375 ml.
Lançamento em Setembro - organizem as economias: até lá dá para juntar um dinheirinho para celebrar a chegada da primavera.

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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Que raiva

Um passeio ingênuo ao supermercado e uma surpresa pra lá de desagradável. Já tinha ouvido falar, mas nunca havia visto uma.
Fazia bastante tempo que não sentia tanto nojo de um texto. O vinho é uma bebida que contém álcool, sim, porque é o resultado da fermentação dos açúcares do suco da uva. No entanto o vinho está longe, mas longe demais de ser vista apenas como uma bebida alcoólica. O vinho acompanha o homem desde o começo dos séculos e eu tenho minhas dúvidas se seríamos de fato como somos (nós, seres humanos) se o vinho não existisse. Temos defeitos e qualidades, mas os teríamos diferentes se o vinho não existisse.
Filosofia à parte, essa plaquinha generalizando a bebida alcoólica é nojenta. Eu convivo diariamente com produtores de vinhos, sommeliers, vendedore e, sobretudo, aqui em minha escola, com consumidores de vinho. E, das centenas de pessoas que conheço, a grande esmagadora maioria são pessoas com famílias pra lá de normais, saudáveis, com filhos lindos, avós incríveis e tios encantadores. E, sim, eu conheço pessoas que sofrem de alcoolismo, e cujas famílias acabam sofrendo também, mas quero deixar claro que as bebidas alcoólicas, muito menos o vinhos, não destroem famílias, não são prejudiciais a elas nem à sociedade. Ao contrário: o vinho constroe e fortalece relações, as estreita, faz bem à libido e à fertilidade dos casais, reforça a alegria de se estar junto da família.
Quem é prejudicial são as pessoas que não sabem consumir nem vinho nem álcool, nem nada.

Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

Diploma de Sommelier Internacional

Atenção, leitores. A Federação Italiana de Sommeliers vai passar por São Paulo para oferecer seu curso de certificação internacional de sommeliers. O curso tem duração de 5 dias e duram o dia todo (das 10 às 19 horas) da segunda feira dia 30 de Junho até sexta feira dia de Julho.
O curso será ministrado por Roberto Rabachino. Ele foi o único eleito duas vezes melhor sommelier do mundo pela International Wine Federation. Também ganhou o prêmio 2008 da Vinitaly de melhor comunicador do vinho.
No programa, a importância do sommelier, análise organoléptica, degustação técnica, vinhos espumantes, brancos e tintos do mundo são alguns dos temas. Também o serviço, as taças e instrumentos do sommelier serão assuntos apresentados.
Haverá, no final do curso, prova escrita e oral e um coquetel de entrega de diplomas.
O diploma tem validade internacional e é reconhecido pelo ministério da agricultura italiano.
O preço é de R$ 2900,00 que pode ser pago com desconto à vista ou em 2 ou 3 parcelas.

Os livros "Vocabulário do Vinho" e " Manual do sommelier" estão inclusos, assim como todas as fichas técnicas de degustação e um taste - vin de prata para os que se diplomarem.

Para mais informações, www.estimacom.com.br/fisar ou Paola Tedeschi 11. 3825 1950

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Quarta-feira, 11 de Junho de 2008

O Porto


Na minha última viagem a Portugal, tive a oportunidade de passar uma tarde na cidade do Porto. E posso afirmar que a cidade se harmoniza muito bem com seu vinho mais célebre: é densa, complexa, tem tradição, com aroma de álcool no ar e é, definitivamente, doce. Almocei com o maior produtor de cortiça do mundo, senhor Américo Amorim e com sua família. Com eles e sua filha Luísa, responsável pelos vinhedos da família, tomei seu vinho branco 3 Pomares e o tinto Quinta Nova. O branco não está disponível no Brasil, mas o tinto é trazido pela Vínea Store e custa uns R$ 75,00. Lembrando que eles eram proprietários da marca de Porto Burmester e a venderam. Mantiveram, no entanto toda a estrutura e os vinhedos.
Na cidade, aproveitei para dar uma volta, sentar à beira do rio Douro e bebericar um Porto. Lembrando que há vários tipos de Porto. O Ruby é um estilo de fruta, sem muito envelhecimento, engarrafado logo. A temperatura de serviço é 16 graus. Temperatura que vale também para um Tawny, estilo que mostra, pelo seu envelhecimento em barricas, notas de tâmaras, frutos secos e caramelos. Já os estilos LBV e Vintage, retintos, encorpados, tânicos e alcoólicos, a melhor temperatura é 18°C.
Lembrando que, depois de abertos, o vinhos do Porto não duram muito mais do que outros estilos de vinhos. Esse tempo pode ser prolongado com o uso daquelas tampinhas que retiram o ar da garrafa, mas não vai muito além de, em alguns casos extremos, uma semana.

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Encontro Mistral

Foi uma pena eu não ter podido ir ao encontro Mistral e trazer notícias quentinhas, mas pude sentar no almoço de abertura e ter o razer de papear com produtores. Estava Eric Boisseaux, produtor do Château Vannières, da região de Bandol. Gosto do sul da França, sempre gostei, e o interessante é que o produtor dise que ele faz só 1 branco e 1 tinto. Não tem 10 linhas de vinhos, cada um com quantidades de madeira diferentes, vinhas velhas, vinhas novas, isso ou aquilo. Mas depois olhei no catálogo da Mistral e há várias linhas de Château Vannières... não entendi.
De todas as maneiras, tomei o Château Vannières 2004 (90% mourvèdre). Bem, apesar de o sol estar batendo na minha cara e a sensação ser de 47° centígrados, deu pra tomar o tinto dele. Bem clássico, sul da França, safra 2004 bastante couro, um pouco fechado, melhorou depois de uma meia hora. Boca tânica, firme e fresca, um pouco grudento ainda, textura terrosa, mas combinou divinamente com a costeleta de cordeiro. R$ 133,00 na mistral

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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Imperdíveis do Alentejo


Ir ao Alentejo é delicioso. Fui, precisamente, a Reguengos de Monsaraz. A comida, as pessoas, as praças com suas igrejas e sinos. Em termos de vinhos, não é todo dia que tomamos aqueles fermentados em ânforas de barro. Tive a oportunidade de visitar, com António Maria Soares Franco, a cave José de Souza, que, desde 1986, também pertence à José Maria da Fonseca, que faz, mais ao norte, em Terras do Sado, o Periquita. Estava com a gente o enólogo Paulo Amaral que nos contou detalhes dos vinhos.
Começamos pelo vinho mais básico deles, feito sem nada de passagem por barricas, pura fruta. Feito com Aragonês, Trincadeira, Castelão e um "bocadinho" de Syrah. A safra é 2007, que deve estar desembarcando no Brasil logo, logo. Nariz bem frutado e limpo, um toque torrado de amendoim, leve mineral, mas sobretudo, muita fruta. Na boca tem taninos bem fininhos, é fresco, rico em fruta e final curto, mas gostoso. Por aqui, a delicia custa R$ 21,00 - imperdível!
Depois partimos para o José de Souza 2004. O corte de uvas é Trincadeira em 60%, 30% de Argonês e um pouquinho de Gran Noir (mais pra frente falo mais sobre esta uva). Parte dele é fermentado nas ânforas de barro que, praticamente, só esta casa ainda as tem. Metade do vinho passa por carvalho.


Nariz com notas de ervas aromáticas, um tom verde (que, depois percebi, vem da Trincadeira), amora, chocolate com menta e cedro. Na boca é muito cheio, com taninos super redondos, rico e final intenso e longo. Por aqui, no Brasil, o vinho custa por volta de R$ 70,00.
Já o José de Souza Mayor é totalmente fermentado nas ânforas, ou talhas, como eles as chamam. Têm um metro e oitenta, 2 metrso de altura. Nelas cabem aproximadamente 900 litros de "massa", ou seja, suco e cascas para fermentar. Como limpam? Um homem precisa entrar lá dentro. A composição é 50% de trincadeira, 30 de Gran Noir e 20% que fermentam separadamente por 10 dias e ficam em maceração por mais 2 semanas. Depois vão para barricas separadas de carvalho americano e francês por uns 12 meses (incluindo a mítica "Icone" da Seguin Moreau). Ao final deste período, decide-se o corte final. Resultado: nariz com notas minerais, um toque de barro fresco, menta, muita fruta e balsâmico. Na boca é muito cheio, com excelente acidez, grande e mostrando bom potencial, já que ainda está tudo bem jovem e arisco (taninos, álcool e acidez). O preço por aqui: R$ 120,00 - 150,00.

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Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Portugal, delícia.. - parte 3 Além do rio


Estar além do Tejo é muito mais do que estar ao outro lado do rio. Ir para o sul é adentrar outro universo, outra dimensão. O clima muda, a paisagem se suaviza. Lisboa vai ficando linda e triste para trás, recortada com suas casinhas debruçadas sobre as águas despedindo-se generosamente (em Portugal , quando partimos de qualquer lugar, é sempre bom olhar pra trás. As paisagens à despedida, se mostram, ao longe, mais encantadoras do que na chegada...daí os fados?).
À frente, ondas cor de trigo se desenham, suaves. Pouco a pouco, este mar aparece salpicado de oliveiras alinhadas. suas folhas pequenas, em forma de olivas, se agitam cintilando o prateado de sua parte inferior. Olhando mais de perto, vemos seu tronco grosso e a forte ligação com a terra. Mais à frente, as árvores rainhas da região surgem sobre os montes, ao fundo, no topo das suaves inclinações: são os sobreiros - as árvores mais lindas do mundo. Troncudas, copas imperiais, conhecidas pela crueldade. Não dão a quem as planta, seu filho mais precioso: a cortiça. Exige paciência, cuidados e caprichos.
Estamos em terras dos montados, das bolotas, das azinheiras. Nestas herdades, as paredes são grossas e brancas, só elas capazes de sustentar o peso de tanto anos de existência e tradição. Os tetos são abobadados e o piso de pedra. No ar destas casas, um neblina constante paira e o aroma a lareira preenche o peito com ares de aconchego, de eternas boas vindas.

Américo Amorim é, sem dúvida, o grande pai destas belezas. O homem mais importante na produção de cortiça mundial (e um dos mais interessantes e brilhantes que já conheci) mostra suas casas e me convida a almoçar com sua família em sua casa no Porto. Por mais longe que esteja do Alentejo, perguntar-lhe da cortiça é fazê-lo sorrir "é minha origem," me contou. E também me afirmou "nestas minhas propriedades, eu deixo crescer as árvores, quero ver as florestas crescerem, não deixo que cortem uma".
Ainda no Alentejo, as lebres atrevidas nos cruzam pelas estradas velozes e violentas, os cachorros nos levam a visitar bodegas, onde se escondem ânforas que há muito perderam seus artesãos e os porcos pretos se fartam de comer bolotas.
O Alentejo é uma terra tão boa que ainda permite que seus velhos se sentem nas praças, a digerir o almoço e assistirem as primaveras escandalosamente fortes em cores cumprindo sua mais importante tarefa: permitir que a vida siga linda...

Confesso, no entanto, que ao partir do Alentejo, não olhei para trás. Não poderia suportar a idéia de que, em qualquer momento, aquelas paisagens pudessem ser mais bonitas. Se fossem, talvez não seria capaz de sair de lá nunca mais.

Portugal, delícia.. - parte 2




Em Portugal, eu não fui apenas presenteada com vistas incríveis. A companhia dos passeios por Portugal não poderiam ter sido mais agradáveis. Sábado fui levada pelo senhor Manuel Rodrigues para comer pastéis de Belém. Não saberia descrevê-los. Vêm quentinhos, a pasta por dentro é suave, doce, cremosa e perfumada. A massa, uma espécie de folheado mais fino que papel de seda não cede à pegada da mão mas só se deixa desmanchar na boca. Suave e intenso, cremoso e crocante...
A fila na entrada do lugar é permanente. Como disse, as companhias foram incríveis. Manuel me apresentou a escritora Sofia Marrecas Ferreira, uma das mais importantes escritoras da atualidade. Eu estou amando o jeito com o qual ela descreve as pessoas, as paisagens, suas maneiras de falar. Fica a dica: " Só por amor" é o nome do livro.
Encontramo-nos com Ana, esposa do sr. Manuel e fomos almoçar (sim, comi 2 pasteís de Belém antes do almoço).....na praia. Na linda praia Morena, Costa de Caparica. Serviam feijoada brasileira, mas não tinha tantas saudades assim de casa e devorei um robalo fresquíssimo com um, obviamente, divino Alvarinho. Sol, vento fresco, sombrinha e Alvarinho. Poderia pedir mais?

Nada melhor para aliviar a leve tensão que levava dentro pelo fato de saber que dali a poucas horas seria entronizada na confraria do Periquita... que nervo...

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Portugal, delícia.. - parte 1


Como vocês devem saber, queridos leitores (já que fiz um merecido estardalhaço sobre o tema), fui a Portugal para ser entronizada na Confraria do Periquita. Cheguei na terrinha na sexta feira de manhã. Fui lindamente recebida pelo senhor Diogo, que me levou para passear pela charmosa Lisboa. Não só me levou a lugares incríveis da cidade, como fomos comer num restaurante minúsculo, igualmente incrível. "O Parreirinha" é pequeno, absolutamente aconchegante não só no tamanho, mas no calor humano também. Fica na Av. Santo Antonio, em Barcarena, perto da fábrica de pólvora. Divino como o restaurante era pequeno e simples, mas tinha uma carta de vinhos maravilhosa. O serviço do vinho e da comida, impecável e simpático. Por favor, reparem nessas bochechas do sommelier...puro tanino. Comi todas as entradinhas, muito, vários pratos deliciosos. Uma carne com almejas e batatas douradinhas, absurdamente crocantes e depois um arroz feito com o sangue da galinha, absurdamente delicioso.

Quase esqueço, o vinho em questão era o Cortes de Cima (eu sei, já conheço, mas não resisti).
Na sobremesa, queijo fresco com vários tipos de geléias, mas definitivamente, a melhor foi a de cebola. Sim, geléia de cebola, deliciosa, docinha, mas com um finalzinho ácido de cebola...não, não deixa bafo. Até porque, se deixasse, não ia mudar nada.
Aqui, uma foto resumo do almoço

Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Queijos e Vinhos (tintos???)

Combinar comidas e vinhos não é, de fato, a tarefa mais simples do mundo. No caso dos queijos, não é diferente. Normalmente uma tábua de queijos mistura vários estilos, texturas e sabores diferentes, que nem sempre combinam nem entre si. O ideal, na hora de combinar, é tentar organizá-los em grupos e beber vinhos que combinem com aquele grupo. No entanto, não há regras bem claras. Digo isto porque se, por exemplo, escrevo aqui: parmesão vai bem com vinhos tintos leves e frutados, corro um grandes risco de fazer você, leitor, errar. Por que? Pois porque eu não sei se você vai comprar um queijo "tipo" parmesão feito aqui no Brasil, leve e adocicado ou se comprou um autêntico italiano, farinhento e picante.
Nosso querido leitor Ramon de Freitas nos escreve contando a frustração. De fato, a experiência pode ser frustrante. No entanto, gostaria de dar uma dica sim. Será que não estamos acostumados demais a achar que um "queijo e vinho" é uma coisa de inverno, que associamos diretamente com vinho tinto? Será que não é o caso de buscar brancos cremosos como os Chardonnays do novo mundo ou outros (ainda brancos) opulentos e cremosos como o Moscatel de Setúbal ou um late harvest?
Façam a tentativa, e não deixem de compartilhar.

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Verdades e Mitos

Uma coisa eu reparei: os mitos do vinho servem para nos resguardar, mortais, da verdade real do vinho: ele não tem verdades, não tem regras, não tem tabelinha de safra, uva, ou determinismo que o possa explicar.
O vinho tem tantas variantes que não há como dizer "isto está certo e o outro está errado". Fora todas as variantes da produção:quantidades, rendimentos no vinhedo, safra, vinificação, carvalho ou não, estão as variantes de quando tomamos o vinho. Mais jovem, mais velho, será que está bom agora, será que espero?????
Digamos que você sabe que o vinho está certo, no ponto para ser bebido, que todas as outras variantes são positivas e estão a seu favor. Aí você abre e percebe que aquele não era o SEU dia, você está meio mau humorado(a), e quem não está harmonizado é você.. acontece. Tipo, hoje estou com afta e preciso dar uma aula, com uma seleção incrível de Malbecs, só que não consigo sentir porque dói minha boca quando bebo..enfim. O vinho pode ser bárbaro, mas eu não sinto.
Bem, aí, dia desses, conto para vocês que a forma da taça influencia BRUTALMENTE no sabor do vinho. O leitores estão passados, bege mesmo. Claro, com razão, "o que faço??? Desesperador, no mínimo...Aí os leitores Luiz Negrão e Jandy Anacleto me escrevem em choque, claro.
Não sei se isso consola vocês, mas eu também acho tudo isso difícil. Mas justamente é essa incerteza do vinho, nessa grande chance de errar reside minha curiosidade e meu amor pelo vinho.
A realidade do vinho é a mais brutal que há: não há uma verdade....
Não é o máximo?

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Cave de dúvidas e adega de respostas.

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