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Suave é a vida nos Jardins
No quadrilátero dourado da cidade, pessoas ricas, bonitas
e elegantes lançam moda e fazem do dia-a-dia uma grande festa


Por Augusto Nunes

A celebração começa com o almoço no restaurante Salad's, na Rua Oscar Freire, em pleno coração dos Jardins. Em seguida, caminha-se algumas dezenas de metros para o café no L'Arnaque, mirante perfeito para a contemplação do desfile que anima as tardes na região. Depois, chega a vez do passeio às margens das vitrines da rua. Velhos freqüentadores do lugar fazem uma escala na Banca do Carioca - conversar com o dono enquanto se folheia uma revista é sinal de intimidade com os usos e costumes nativos. O crepúsculo requer urn drinque em algum bar que tenha importado o hábito americano do happy hour, uma das alegres manias da temporada. O jantar pode acontecer no Manhattan, ante-sala adequada para o fim de noite no Gallery ou no Rose Born Born. Ao completar a jornada, o passageiro dessa viagem pelos Jardins terá seguido à risca o código de comportamento em vigor no mais requintado paraíso do bem viver de São Paulo e hoje, provavelmente, de todo o Brasi!.

Esse paraíso ilumina um quadrilátero que tem como limites a Avenida Paulista, a Rua Estados Unidos, a Avenida 9 de Julho - ou, para muitos, a Brigadeiro Luis Antônio - e a Avenida Rebouças. A região é riscada por 28 ruas - e abrange tantos atrativos que seu código de comportamento permite infinitas variações. O almoço e o jantar, por exemplo, podem ocorrer num dos mais de 100 restaurantes estrelados que movimentam os Jardins. Para os interessados na paisagem humana, as mesinhas na calçada do Sandufehe configuram outro excelente ponto de observação. 0 passeio digestivo será igualmente agradável se tiver por moldura as vitrines da Rua Bela Cintra. Com ou sem happy hour, cerca de 200 bares convidam aos drinques, e a esticada nas boates pode ser substituída por uma madrugada na Pizzaria Otello. Quaisquer que sejam as combinações extraídas desse vasto car-dápio do lazer, terá sido traçado um itinerário que conduz à alma dos Jardins.

"Quem anda por aqui tem o perfil do poder: é rico, elegante, culto, belo e sofisticado", diz Regina Boni, dona da Galeria São Paulo, perto da esquina das ruas Augusta com Estados Unidos. "Os Jardins são um país dentro de outro", afirma Regina. "Esta região é tão diferente que nos deixa por fora do que venha a ser o Brasi!." As fronteiras desse universo singular estão permanentemente abertas a brasileiros de outros bairros e outras cidades - basta ter boa disposição e, naturalmente, algum dinheiro para incorporar-se à enorme população flutuante dos Jardins. Fazer parte da população fixa e notavelmente mais complicado e difícil.

Uma pequena casa na Alameda Lorena, por exemplo, exige luvas de 80 milhões de cruzeiros, sem contar o alugue!. Apartamentos em edifícios recém construídos estão sendo negociados ate por 4 milhões de cruzeiros o metro quadrado. Na Rua Oscar Freire, a mais badalada do quadrilátero, um ponto comercial não sai por menos de 200 milhões de cruzeiros. Nos Jardins, mesmo imóveis com fachadas pouco atraentes custam muitos zeros - não será difícil conferir-lhes o encanto da originalidade, como ocorreu com a mercearia transformada no movimentadíssimo Bar Supremo.

Certamente interessados em defender seu território de ondas de invasores, os nativos dos Jardins carregam nas cores quando aludem a uma de suas características - o trânsito confuso. O empresário e ator Emile Edde, dono de urn apartamento na estratégica esquina das ruas Haddock Lobo e Oscar Freire, diz-se atormentado com os congestionamentos e os carros estacionados em fila dupla - ou tripla, nos fins de semana. "Prefiro deixar o meu na garagem", diz Edde. Ele poderia acrescentar que, ao agir assim, apenas obedece a um dos primeiros mandamentos do lugar. "O que mais me fascina neste lugar é o fato de que as pessoas circulam a pé", conta o dono do L' Arnaque, Quentin Geenen de Saint-Maur, um estrangeiro que adotou os Jardins.

Filho de pai francês e mãe belga, Quentin nasceu no Zaire há 32 anos. Está há quatro no Brasil e decidido a nunca mais sair dos Jardins. Desde sua chegada ao país, suspendeu suas temporadas na Europa, mas ao menos quanto a sotaques não pode queixar-se de saudade. A julgar pelo som que vem das mesas do L' Arnaque, a língua oficial do restaurante de Quentin é o francês. O segundo idioma é o inglês, e mesmo as conversas em português são generosamente temperadas por expressões estrangeiras. Quentin jura que a abastada clientela do L' Arnaque ainda não conseguiu enriquecê-lo. Pelo menos garantiu-lhe o suficiente para abrir no mês passado outro restaurante na Avenida Paulista, o Up Town. Coerentemente, esse filho adotivo dos Jardins faz a pé o trajeto entre seus dois restaurantes.

Caminhar por ali é sempre fascinante e, sobretudo para forasteiros, surpreendente. Pela manhã, a multidão que caminha pelas ruas é formada basicamente por habitantes do lugar, entretidos na ronda dos supermercados, padarias e, naturalmente, lojas. Durante a tarde a vaga humana é engrossada por brasileiros de outros bairros, dispostos a pelo menos examinar as vitrines. A senha para a festa é dada pela abertura dos bares, no fim da tarde. A calma só será retomada no meio da madrugada, quando o alegre barulho dos convivas dos Jardins se concentra nas boates, danceterias e clubes privês da região.


Os Jardins são sobretudo um mar de vitrines, que incorpora tanto o velho logotipo das Casas Pernambucanas quanto os modelos exclusivos e milionários de Madame Rosita. Na Haddock Lobo, a Dengo's Dog exibe presentes para bichos de estimação. Na Bela Cintra, a British Home oferece objetos para decoração de inspiração inglesa, distribuídos pelas sete salas de um sobradinho cor-de-terra, com janelas verdes e o umbral da entrada abraçado pela hera. Inaugurada há seis anos, a British Home vive repleta de móveis, quadros e objetos nem sem-pre originais, mas invariavelmente marcados pelo bom gosto, comprados de famílias britânicas residentes no Brasil ou trazidos da Inglaterra. "Acho as ruas Oscar Freire e Bela Cintra parecidas com a Via Borgognona, em Roma, com a diferença de que lá não circulam automóveis", diz a socialite Eleonora Mendes Caldeira.

O mapa do paraíso

Há um ano, Eleonora trocou seu refúgio no Morumbi por um apartamento nos Jardins, e adorou a mudança. "Aqui se vive no meio do ti-ti-ti, perto de tudo, é ótimo", exulta. Outros trechos do bairro, mais tranqüilos, po-deriam lembrar as ruas comerciais procuradas pela classe média de qualquer cidade do interior.

Essa amistosa convivência na diversidade é outra marca dos Jardins. Pessoas famosas gravam seus nomes nas paredes do restaurante Oscar, moradores anônimos festejam com faixas penduradas nos postes parentes que fazem aniversário ou regressam de viagem - faixas de cumprimentos nas ruas, por sinal, são uma invenção dos Jardins. O ortodoxo Frevinho, ancorado há trinta anos na esquina da Augusta com Oscar Freire, coexiste fraternalmente com jovens e barulhentos vizinhos que têm proliferado no agitado quadrilátero. É o caso do diminuto Spea-keasy, onde a clientela costuma transbordar para a Rua da Consolação - a "prainha", no jargão dos freqüentadores. Ou do Rock Dreams, que tem mesas na calçada e uma carcaça de autómovel adornando a fachada.

"Os Jardins representam hoje para o paulistano o que foi Ipanema para os cariocas há alguns anos", compara a editora de moda Costanza Pascolato. "Ali está a grande passarela da moda, o espaço livre onde todos, sem exceção, podem ousar." Em seu trabalho na revista Claudia Moda, Costanza procura inspirar-se na mulher dos Jardins. "Ela coloca em primeiro lugar a produção e só depois o traje", explica Costanza. A "produção" é inteiramente feita no quadrilátero. Os cabelos têm a marca do Beka, do L'Officiel ou do Marco e Marcelo Beauty. A limpeza de pele fica por conta do Jacques et Janine, os óculos de sol são da T. Macchione e a gravatinha sai das vitrines da Márcia Pinheiro.

"A mulher dos Jardins é reconhecível mesmo quando está usando uma roupa idêntica à de uma paulistana de outro bairro", diz Costanza. "É só prestar atenção ao modo de transar um acessório, ao corte do cabelo, à maneira de andar. Há um trabalho de produção por trás daquilo." E a versão masculina dos Jardins? "É o único lugar da cidade onde o homem ousa um pouco mais", afirma Costanza, que identifica dois tipos basicos. "Há o tipo clássico, que se veste em lojas como a Richard's, e o garotão, que gosta de camisões supercoloridos da Mr. Wonderful ou da butique Fórum."

Alguns truques podem facilitar o tráfego de um recém-chegado aos Jardins. Recomenda-se, por exemplo, jamais demonstrar entusiasmo pela Rua Augusta, a grande espinha dorsal do bairro, considerada definitivamente ultrapassada - out, no idioma dos Jardins - pelos especialistas. E, como sugere a fotógrafa Vânia Toledo, "é preciso ao menos conhecer as pessoas" - por-que os antigos freqüentadores efetivamente se conhecem, como avisa o figurinista Ney Galvão. No Gallery, por exemplo, Ney garante sentir-se absolutamente à vontade. "O Gallery é uma extensão da minha casa, conheço todo mundo", diz.

Para um conhecedor do código dos Jardins, é uma heresia consultar cardápios em certos restaurantes. O In Cittá, por exemplo, é um lugar para se ordenar um prato de nhoque. No David's, um almoço não começa adequadamente sem a mortadela com limão no aperitivo. No L' Arnaque, é tempo de pato com manga. Para beber, em qualquer lugar dos Jardins, estará dentro das regras quem pedir vinho branco servido em copos, mesmo que seja nacional. Outro cuidado indispensável é ter sempre um sorriso pronto - em nenhuma outra parte de São Paulo há tal profusão de fisionomias risonhas. "Os Jardins são uma festa", diz a atriz Bruna Lombardi, que nasceu no Rio de Janeiro mas passou boa parte da sua vida na Alameda Jaú. "É um lugar de pessoas alegres, inteligentes, que têm estilo e tentam fazer da vida uma arte." Embora morando no Morumbi, Bruna pemanece estreitamente ligada ao quadrilátero. "É a minha casa, o meu pedaço", diz. "Gosto de andar pelos Jardins. Sempre há novidades para descobrir numa de suas ruas, nas esquinas e nas lojas."

Nos Jardins, as grandes novidades não costumam ser postas de lado depois de saboreado o encanto da descoberta - ao contrário, incorporam-se aos endereços obrigatórios da região. Foi assim com a padaria La Baguette, inaugurada há um ano na Rua Padre João Manuel, cer-tamente a mais refinada casa do ramo em todo o país. As diferenças começam a porta, onde um manobrista se encarrega de estacionar os carros da freguesia. Dentro da padaria, um desvio na tubulação canaliza para o ar condicionado o cheiro das fornadas de pães que saem do forno a cada meia hora. Seduzidos por esse apelo irresistível, dezenas de clientes acotovelam-se em busca de saborosos e irresistíveis brioches, baguetes, croissants e outras especialidades da casa, produzidas sob a supervisão de dois padeiros formados na Europa. Os fornos da La Baguette assam vinte diferentes tipos de pão e outras especialidades por dia, gerando um faturamento de até 600 milhões de cruzeiros mensais.

Como centenas de fregueses acorrem à padaria vindos de pontos distantes da cidade, os donos da La Baguette resolveram abrir filiais em outros bairros. "Dentro de algumas semanas, vamos inaugurar a filial do Itaim", informa o diretor comercial da empresa, Marcos da Silva Telles. Nem sempre fómulas bem-sucedidas nos Jardins repetem o êxito quando deslocadas do cenário original. A Churrascaria Rodeio, por exemplo, é uma instituição do lugar. Vende 450 quilos de carne por dia, mantém a media de 800 couverts e emprega uma multidão de 200 funcionários, distribuídos por três turnos de trabalho. Em 1983, as donos da Rodeio abriram uma filial no Shopping Center Eldorado. A carne era a mesma, o cardápio era o mesmo, os cozinheiros eram os mesmos. Mas o endereço estava fora do mítico quadrilátero - e o Rodeio Eldorado teve de fechar suas portas no ano passado, depois de uma curta e melancólica carreira.

É muito difícil, por exemplo, imaginar a Casa Santa Luzia fora da moldura dos Jardins. Esse templo das finas iguarias abriu suas portas pela primeira vez em 1926 para uma Rua Augusta que não tinha sequer calçamento. Migrou depois para a Alameda Lorena e ali reina até hoje. "Os preços da Santa Luzia são mais salgados, mas não resisto: faz 25 anos que apareço todo dia para comprar alguma coisa", diz Waldemar Lerro, 81 anos. Entre as preciosidades existentes nas prateleiras da Casa Santa Luzia po-dem ser encontrados vinhos do Porto da Companhia Velha (1,45 milhão de cruzeiros) ou salmão Inglês em fatias (400000 cruzeiros o quilo). Há dois meses, a Santa Luzia passou a oferecer a clientela carrinhos de compras equi-pados com minicalculadoras. Com isso os clientes podem controlar melhor a multiplicação dos zeros.

Ciosa dos filões existentes em seu território, a população nativa não costuma incursionar além das fronteiras do quadrilátero em busca de mantimentos. Muitas famí-lias dos Jardins se abastecem de carne no Wessel da Avenida Faria Lima, que oferece produtos fora do alcan-ce do único açougue convencional instalado na região. Outras se recusam a fazer até mesmo essa concessão ao mundo exterior, recorrendo aos quatro supermercados dos Jardins ou enfrentando os preços salgados da Casa Santa Luzia.

Os grandes endereços dos Jardins inevitavelmente se transformam em vitrines de gente famosa. O pretexto para enfileirar rostos conhecidos - atores, políticos, empresários - pode ser o apetite por doces e salgados da cozinha judaica polonesa, responsável pelo êxito da Z. Deli, aberta há três anos na Haddock Lobo. Para Aldenir Rodrigues, barman do Supremo, é natural que tudo acabe em festa. "O que são os Jardins?", pergunta Rodrigues, para responder em seguida: "A zona do ti-ti-ti". O barman do Supremo ganha em média 4 milhões de cruzeiros por mês e garante que não pretende fazer fortuna. "Não preciso ser rico", diz. "Quero apenas que os ricos continuem existindo, para que gente como eu possa servi-los."

A mesma frase poderia ser repetida, sem retoques, por Devanir Marcolino Gall, O "Carioca" da banca de jornais e revistas plantada na esquina da Oscar Freire com a Haddock Lobo. Há treze anos no comando da banca mais popular dos Jardins, Carioca fatura em média 1 milhão de cruzeiros por dia. Fregueses antigos têm direito a regalias extras, como descontar cheques, comprar fiado ou conseguir empréstimos para corridas de táxi. Há seis meses, Carioca hesitou em bancar um empréstimo para um jovem que não conhecia. Cedeu quando seu interlocutor lhe ofereceu, em garantia de um empréstimo de 10 000 cruzeiros, um isqueiro Bic com capa de prata 90. Até hoje Carioca desfila com o isqueiro, a espera de que o dono reapareça.

Outro beneficiário da prodigalidade dos moradores dos Jardins é o motorista de táxi Odilon Rodrigues Beltrame, 53 anos, há dezenove no ponto localizado na esquina das alamedas Casa Branca e Lorena. Beltrame fatura cerca de 300 000 cruzeiros por dia - sobretudo porque, além das corridas, faz numerosos serviços ex-tras para os moradores dos Jardins. Levar crianças à escola, por exemplo, implica uma taxa adicional de 5 000. cruzeiros. "Já servi a muita mulher enciumada, tentando seguir os passos do marido", conta Beltrame. "Mas isso é perigoso, e hoje não faço um trabalho desses por menos de 500 000 cruzeiros." .

Alguns serviços confiados aos 24 motoristas do ponto são decididamente originais. No mês passado, Zelidia Delboni, dona de um apartamento no no. 11 da Alameda Casa Branca resolveu recorrer a Beltrame para ajudá-la a pagar uma promessa a Santo Antônio na Igreja Nossa Senhora do Brasil. Além de transportar a cliente, o motorista passou a tarde distribuindo santinhos à porta da igreja, em nome de dona Zelidia. Beltrame não revela quanto ganhou pela tarefa. "Ela é uma senhora muito generosa", resume.

Os Jardins têrn a sua própria igreja - e, previsivelmente, ela não e uma igreja qualquer. Construída para católicos de língua inglesa, sé em 1966, atendendo à orientação do Concílio Vaticano II, a Paróquia Nossa Senhora Mãe da Igreja permitiu que o idioma português ecoasse entre suas paredes e 36 vitrais, todos doados por famílias britânicas, americanas e canadenses. "Nesta região há muitos judeus, mas temos um grande número de fiéis católicos", informa o padre João Manuel Fernandez. Existe nos Jardins, também, um vasto rebanho a incorporar.

"Como boa elite que se preza, o pessoal aqui não é moralista", diz Regina Boni. É improvável que qualquer outra parte da cidade acompanhe o ritmo do quadrilátero no consumo de drogas caras. Namora-se muito nos Jardins - nos bares, nos restaurantes, nas boates, nas ruas. Mas até mesmo os habitantes dos prédios vizinhos não parecem incomodar-se com o movimento noturno do "Autorama", ao redor da quadra ocupada pelo Colégio Dante Alighieri, onde jovens motorizados, hoje assustados com a AIDS, circulam em busca de parceiros eventuais. Ironicamente, essa liberdade de costumes tem o mesmo endereço do colégio que desde sua instalação na Alameda Jaú tem configurado uma fortaleza do tradicionalismo.

O Dante Alighieri é a estrela maior de uma constelação que inclui mais de cinqüenta colégios, escolas, escolinhas, cursos de línguas e de especialidades bizarras. Bebês podem aprender natação na Mare ou ioga na Hello Baby. A Mãe Terra, uma loja de produtos naturais, ministra cursos de Astrologia e de produção de queijos. E formam-se rabinos no seminário anexo ao Colégio Iavne Beith Chinuc, plantado há trinta anos na Rua Padre João Manuel. O colégio, criado pela Sociedade Judaica e hoje subordinado à Secretaria de Educação do governo estadual, tem mais de 540 alunos, quase todos de ascendência israelita, e não alterou sensivelmente os métodos utilizados ao tempo em que ali estudava o físico nuclear e presidente da Eletropaulo, José Goldemberg, 57 anos. "As lembranças que guardo do colégio são as melhores possíveis", depõe Goldemberg. "0 Iavne Beith Chinuc me deu a formação moral e religiosa de que necessitava."

Esse colorido painel, que inclui trinta livrarias, quatro cinemas e um teatro, representa, segundo o presidente da Paulistur, João Dória Júnior, 27 anos, "O núcleo mais charmoso, agradável, divertido e agitado da cidade de São Paulo". E, também, a atração turística que menos trabalho dá ao organismo dirigido por Dó-ria. "Os Jardins dispensam a ação direta da Paulistur", reconhece. "0 lazer pago tem sido suficiente na área." João Dória Júnior mora na Alameda Jaú, defronte do coreto do Parque Siqueira Campos, o Trianon, e não pretende sair dali. "É neste bairro que os hábitos e tendências de São Paulo surgem ou se concretizam", diz.

Tem sido assim desde os anos 70, mas nunca como agora os Jardins ditaram a moda de forma tão avassaladora. O empresário Aparício Basílio da Silva, 49 anos, há trinta no quadrilátero, foi testemunha e, eventualmente, protagonista dessa ascensão dos Jardins. Em 1956, ele comprou um prédio na Rua Augusta onde funcionava uma quitanda e montou uma butique que seria o embrião da Rastro. Naquela época, Aparício inevitavelmente causava espanto ao circular com cabelos compridos, calça verde, uma enorme suéter e óculos com grandes aros de tartaruga. Hoje, se caminhar com esses trajes e adereços pelas ruas do lugar, será apenas mais um nos Jardins.

Dono de três lojas no quadrilátero e de um apartamento na Rua da Consolação, Aparício Basílio da Silva se diz nostálgico dos tempos em que havia poucos prédios na região e se queixa do barulho das cantinas instaladas nas cercanias de seu edifício. Mas basta aproximar-se da janela de seu apartamento de cobertura para se render ao fascínio do lugar que ele elegeu há quase trinta anos. "Os Jardins são o centro da minha vida", diz Aparício. "Preciso desta vista para morrer em paz." E para viver com intensidade, diriam outros milhares de habitantes desse quadrilátero do prazer.

O pique certo do Supremo

Não foram precisos mais do que dois meses, sem qualquer propaganda ou esquema de lançamento, para que o Supremo se tomasse o bar mais quente dos Jardins. Bastou, do início de julho para cá, que a novidade corresse de boca em boca: o bairro ganhou uma nova marca, a paisagem da esquina da Consolação com Oscar Freire mudou de cara e não se passa mais por ali à noite, a partir das 22 horas, sem ter a atenção chamada pelo agito de dezenas de pessoas aglomeradas na calçada, tentando entrar ou querendo sair batendo papo ou simplesmente apreciando o movimento.

O Supremo é um bar com espírito de botequim. "A idéia era abrir uma casa que tivesse todo o clima dos famosos botequins da São Paulo de quarenta anos atrás", diz Roberto Suplicy, um dos sócios do bar. Só que não a de um botequim qualquer, e sim um botequim dos Jardins - o que já basta para torná-lo muito diferente dos outros. De qualquer forma, as pessoas vão ali para beber, e têm feito isso com muita aplicação. Desde a noite de inauguração, quando o estoque de bebidas se esgotou, têm sido consumidas diariamente duas caixas de uísque, e até agora a gerência ainda não teve de se preocupar com a possibilidades de haver bebidas de mais no estoque. Bebe-se no Supremo, hoje, ao ritmo de 10 a 15 milhões de cruzeiros por dia.

Na esquina da Consolação com Oscar Freire, o Supremo: um bar com espírito de botequim

Os donos, Roberto Suplicy, Américo Marques da Costa Neto e Arnaldo Diederichsen, colheram com rapidez o sucesso de uma idéia que, antes de dar certo, poderia parecer banal: compraram a velha mercearia que funcionava no local, fizeram questão de manter seu estilo rústico, assim como o balcão, a fachada e as prateleiras originais, e deram-lhe o nome de um botequim que havia na Rua da Quitanda, no centro velho, anos atrás. Desde logo, o Supremo conseguiu algo difícil de ocorrer hoje em dia, em se tratando de bares da moda - fazer sucesso sem ter de ser freqüentado pela garotada. A faixa de idade ali vai dos 30 aos 50 anos, e boa parte da freqüência se deve ao bom e extenso relacionamento dos donos – só a presença dos amigos já lhes garantiria uma casa meio cheia.

O barman do Supremo, Aldenir Rodrigues, de 33 anos, que já trabalhou no Trianon do Maksoud Plaza e no O Profeta-Jardins, acha que a casa está com "o pique certo". Aldenir, um ex-manequim que usa pulseira de aura, caneta Cartier e isqueiro Dupont, acredita que o bairro tem tudo a ver com a sucesso do Supremo. "De noite os Jardins são um grande sanatório", diz ele. "E quando se chega à essência, quando rola a bebida e as pessoas se soltam." Para se gostar do Supremo, é importante um cuidado especial com o horário em que se vai. Certeza de achar um lugar para sentar? É preciso chegar não muito depois das 6 horas da tarde, quando o bar é procurado por executivos e empresários das imediações. Às 9 horas já começa a se formar uma situação de multidão, com o acúmulo dos que chegam para jantar. Depois das 11 fica-se simplesmente de pé, às vezes até na calçada, e o Supremo passa a pertencer aos boêmios.

A lista de frequentadores conhecidos vai longe: Jô Soares, Carla Camuratti, Maria Zilda, Linda Conde, Ney Galvão, Paulinho Montoro, Eduardo Suplicy - irmão do dono. Outros estão aguardando a hora certa. O publicitário Mário Lúcio Fernandes, um frequentador assíduo dos bons lugares da noite, vai esperar um tempo até que passe o alvoroço do começo. "Não tenho paciência de entrar em fila para beber", explica ele. "Vou deixar a poeira baixar - depois começo a ir."